Resenha Crítica - "A Sangue Frio"



O relato de um assassinato cruel

Para escrever “A Sangue Frio”, Truman Capote passou mais de um ano na região de Holcomb (uma cidade no interior do estado do Kansas, Estados Unidos) para relatar o crime brutal ocorrido em 1959, quando aconteceu o assassinato de quatro membros da família Clutter e a execução dos dois criminosos realizada cinco anos depois. Além de Nancy e Kenyon, Herbert e Bonnie tinham mais duas filhas que já não moravam com eles, Eveanna e Beverly. Capote entrevistou moradores da região e investigou a conjuntura do crime, inclusive os assassinos, apenas utilizando sua memória e aptidão de observação, pois segundo ele gravadores poderiam intimidar as pessoas e elas não agiriam naturalmente. Publicado pela primeira vez em 1965 na revista The New Yorker em quatro partes, e no ano seguinte em livro, ”A Sangue Frio” se tornou uma das obras com grande destaque do jornalismo literário. 
O romance de não-ficção é composto por quatro partes com cerca de 100 páginas cada. A primeira intitulada “Os últimos a vê-los com vida”, que apresenta como era a vida das vítimas e suas relações com pessoas mais próximas, principalmente com a família Helm, empregada da fazenda River Valley, onde a família Clutter vivia. Além da relação de Nancy com seu namorado, Bobby Rupp, e com sua melhor amiga, Susan Kidwell. Além disso, descreve os últimos momentos da família e dos criminosos Richard Hickock (conhecido como Dick) e Perry Smith antes da noite fatídica. O autor ainda retrata como era a vida desses assassinos e traça o perfil psicológico deles. 
Na segunda parte, “Pessoas Desconhecidas”, é descrita toda a trajetória de Perry e Dick depois que saíram da fazenda e o processo de investigação do caso para chegar aos autores da tragédia. É impressionante como Capote relata os acontecimentos de forma extremamente detalhada, descrevendo os lugares, a cidade e as pessoas. A terceira parte, como dito pelo próprio título “Respostas”, quando os assassinos são descobertos e presos, ocorrendo o interrogatório sobre a noite da chacina. Já na quarta parte, “O canto”, é relatado o julgamento, e cinco anos depois, a execução de Dick e Perry em 14 de abril de 1965.
“ A Sangue Frio” é um livro que traz um misto de sensações que nenhuma outra leitura é capaz de atingir. É incrível como, por não ser um livro de ficção, o leitor já sabe o que irá acontecer antes mesmo de iniciar a leitura (obviamente sem todos os detalhes descritos) e, mesmo assim, cada palavra narrada surpreende de uma maneira inexplicável. O modo como Capote relata toda a história de vida de Dick e Perry desde a infância, por exemplo, faz com que o leitor sinta até “pena” dos criminosos por um instante, mas logo lembra-se da realidade em que eles são os assassinos e não as vítimas. Além disso, o livro aborda temáticas como “pena de morte” de uma forma interessantíssima, já que no decorrer do relato sobre o assassinato e a condenação dos criminosos são expostas diferentes opiniões e argumentos sobre o assunto.

A obra é fundamental para o meio jornalístico e enriquece o repertório do leitor. A narrativa é realizada de forma brilhante e única. No decorrer da leitura não se nota a presença de Capote nos locais descritos, fazendo com que seja ainda mais envolvente. O autor utiliza o jornalismo de maneira impecável, envolvendo perfeitamente com a literatura, mostrando empatia pelas pessoas e narrando vários lados de uma mesma tragédia.

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